O Panamá visto de San Blas

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Aqui existem coisas definitivamente diferentes. Como se refere o título, sem margem a coincidências, difere de tudo que vi por onde passei e, suspeito, por onde passarei. Um povo igual, marcado pelo traço físico do bravo indígena. Um povo emergente, desconfiado, residente fiel da intromissão invasiva a que sua sina lhe propõe a décadas. Quase século.
Pra valer isto se deu desde a introdução separatista a qual o Canal do Panamá, definitivamente – instalado sob interesses genuinamente externos, sem a mínima preocupação com a sociedade local -, foi protagonista.
Estava chegando de uma úmida e quente travessia de oito horas de barco, pelo Caribe; da isolada, privilegiada e triste Puerto Abaldia (primeiro ponto fronteiriço do leste do Panamá, quando se ultrapassa os limites territoriais da Colômbia pelo mar), a Carti, a mais povoada das quase 500 micro-ilhas que integram um dos recantos paradisíacos do mundo, o arquipélago de San Blas. Este conjunto de ilhas é integrante oficial do território panamenho, porém, os Kunas, etnologia única e dominante do território, conquistaram a autonomia e administram todo tipo de ação que se desenvolve dentro destes privilegiados pontinhos de terra, livres das interferências, por exemplo, do governo panamenho.
Ao navegar, a princípio, pelas águas do Panamá, já sem tempo para pensar na linda Colômbia que a pouco havia ficado para trás, senti literalmente, apreciando minha pele alvoroçar-se diante do confronto das tantas lindezas, o poder natural desse lugar. Estava no meio do caribe, cercado por água, índios e pedaços terrestres multiplicáveis que insistiam em respirar. Um paraíso que serve de portal para a conflitiva realidade deste, para meus olhos, novo país. Logo a frente, ao pisar no continente, ao conectar-me com a civilização oficial panamenha, já sentia, de novo na pele, o preço exagerado que paga uma comunidade refém das influencias sistemáticas da exploração externa. Dos estrangeiros brancos do norte, que falam inglês.
Queria falar mais de San Blas, da magia desse lugar, dos pores de sol incontestáveis, do sorriso inocente de humanos prisioneiros do paraíso, de umas das sedes cordiais da natureza. Queria esvaziar, limpar minha mente e viver como eles. Mas não posso, já estou infectado pelas efêmeras soluções que ilusiono poder encontra-las, mal sei onde…
Já sou escravo da ansiedade de escrever o verdadeiro Panamá.
Este primeiro país centro americano, do sul para o norte, hospeda dois mundos, duas realidades. No meio, entre uma e outra, está, imponente, o Canal do Panamá. Como escreveu Aleixo Berlov na década de 80 – único brasileiro, baiano, que deu uma volta ao mundo sobre um veleiro por ele construído, só, sem companhia humana -, numa de suas obras de extensa reflexão, intuição e sensibilidade, Em Busca do Oriente: “o canal corta o Panamá em dois, como uma navalha na altura do umbigo”.
Até o ano 2000 o canal foi administrado diretamente pelos Estados Unidos. Neste novo milênio um acordo mais teórico que prático construiu uma nova gestão, local, sob administração dos panamenhos. O que não mudou muito. Os processos gerenciais e operacionais, sob a máscara dos operários panamenhos, continuam sobre o controle estadunidense.
Fiquei pouco tempo no Panamá, mas passei momentos intensos. Interagi no que pude, entre seus pensamentos e instintos peculiares de entender a vida. Durante 15 dias, caminhando sem pressa sobre o solo do país, conheci de perto mais estrangeiros que nativos. Ficou o desejo de poder misturar-me com mais profundidade nas intuições desse povo.

A liberdade alivia e amplia a consciëncia.