Os mundos de Barcelona

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Fotografia: Felicitas Ibañes Aldecoa

Cheguei de ônibus em Barcelona, após uma apressada passagem por Madrid, frienta neste momento, e da montanhosa Zaragoza, viajei oito horas pelas estradas espanholas, do centro geográfico e político para o nordeste costeiro e independentista da Catalunha, do catalão, dos catalães misturados a praticamente todas as etnias, culturas e religiões do mundo e fora dele.

Cheguei para o aniversário de Eros, não o grego, mas o filho dum amigo e anfitrião. Me rodeei de potenciais amigos, e já na recepção, saboreei petiscos saborosos  tipicamente apresuntados, “jamon” como chamam em castelhano, e tomei umas cervejinhas para não esquecer do frio. Fazia cinco graus celsius em Barcelona. Linda Barcelona do mediterrâneo denso e frio.

Aqui há coisas antigas e históricas e muita criatividade; castelos e muralhas romanos levantados após o trinfo da invasão da península ibérica, alguns com sinais, além do tempo, da ira da guerra, construções inclusive judias quase milenares, e ainda prédios, templos e grandes esculturas modernistas na rua com a assinatura e estilo de arquitetos sensíveis e importantes. Antoni Gaudí é um deles e o destaco por ser o personagem principal do modernismo da Catalunha,  ele contemplou a fé de cristão fervoroso e assim fez sua carreira construindo obras influentes principalmente aqui, na sua Barcelona. Para que se possa ter uma medida de sua importância para os catalães, além de saber que no vaticano tramita um processo para sua beatificação, é só, ao menos, tentar visitar alguma das suas assediadas obras espalhadas pela cidade – como “La Predrera” ou o grandioso “Templo de la Sagrada Família”, que desde o ano de 1882, devido a tamanha complexidade do projeto, ainda não está pronta –  caras entradas, beleza artística e abarrotadas de turistas dispostos a pagar.

Também, obviamente por estarmos no complexo século XXI, chegou a pós modernidade aos progressistas nativos e invasores; “La Pérgola” o painel solar gigante que também é museu, os prédios empresariais que hospedam espelhos e gente de negócio que trabalha principalmente para o gigante, e controverso, mercado turístico dessa terra.

Falando no turismo, notável ao passear pelas ruas sempre cheias principalmente nas regiões centrais da cidade – não se pode caminhar por Barcelona sem esbarrar-se em alguém com uma câmera pendurada no pescoço. É japonês, árabe, africano, chinês, australiano sulamericano, gringo e enxames de europeus, para não ser  resumido ao extremo nem prolixo. Uma legião rica de idiomas, trajes, cores e sabores. Andando de metrô a pluralidade cultural se reflete ainda mais e vem a percepção que o mundo não vem aqui somente à passear, mas para trabalhar, intercambiar, para viver.

Do outro lado estão os nativos quase encurralados que a cada dia buscam respirar num lugar tranquilo em sua própria terra. O rico idioma catalão, essencialmente latino e constituído da mescla de português, italiano, francês e o próprio castelhano dos “rivais” espanhóis, ainda é sustentado da mesma forma que o extremo nacionalismo político militante nestas ruas através dos ofensivos movimentos populares. Sobrevive aqui uma demonstração original de luta pela sobrevivência cultural nativa e uma espécie de esperança de uma possível autonomia de estado e separação definitiva da Espanha, representadas principalmente pela conservação do idioma catalão como oficial desde a educação das crianças até todos os mecanismos de informação escrita ou falada que existem na cidade, como nomes das ruas, placas de sinalização e os informes dos meios de transporte coletivos. Mesmo já necessitando, por questões econômicas, da intervenção dos milhares de turistas que chegam a cada dia, nas semanas em que pude testemunhar a rotina do querido povo catalão observei e registrei com facilidade muitas ações separatistas e conservadoras, como protestos em forma de passeatas, ocupações de prédios públicos e privados e as tradicionais e redundantes exposições das bandeiras catalãs marcando território.

Uma cidade com muita liberdade de cabeça, de corpo e de vida. Um prazer Barcelona!

Temos que viver histórias diferentes e depois compartilhá-las.

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