Os enigmas de Bocas del Toro

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Cheguei cansado na isla Colón, a “capital” do arquipélago de Bocas del Toro. Um dia antes tinha saído da Cidade do Panamá, percorri quase que a metade do país em 24 horas.

Por este percurso recordo o atencioso panamenho Camilo, um advogado prolixo e orgulhoso de sua nação. Ele nos deu carona (a Júlio, companheiro argentino mencionado em um texto anterior, e eu) por boa parte do caminho e nos persuadiu com seu palavreado formal, como se estivesse numa audiência em luta constante para convencer o juiz, promovendo o potencial crescimento do Panamá: “somos um povo acolhedor, que sempre proporcionou, e proporciona, oportunidades a todos, independentemente de nacionalidade, raça e religião”. Discursava nosso amigo Camilo. De fato se enxerga, claramente, a mistura que é seu país. Embutindo outros fatores óbvios também, o Panamá beira à falta de identidade.

O fenômeno sócio cultural do canal do Panamá, por meio da operacionalização dum terminal universal, fomentou ferozmente a sobre pluralização evidente do país. Pouco-a-pouco o povo foi – e ainda vai – perdendo o sabor de ser panamenho.

Depois da enriquecedora conversa e de três horas de uma agradável viagem com Camilo, decidimos dormir na praia de Palmar. Estávamos já vendo da luz da lua cheia em exibição e ainda não tínhamos passado da metade do caminho que nos levaria ao extremo oeste do miúdo Panamá. Dormimos às orelhas do pacífico, sob a mesma lua; despertamos no mesmo pacífico, respondendo ao sol que já nos dava, com ternura inabalável, buenos dias.

Na cidade de David, em meio a tranquilidade aparente e dos exagerados anúncios publicitários dos candidatos que concorriam às eleições marcadas para alguns dias depois – um plágio do Brasil – me separei de Júlio e segui para o porto de Almirante, já na costa caribenha. Daí embarquei no ferryboat que me levou a Bocas del Toro. Uma hora e meia depois já estava muito bem, obrigado.

Me instalei, descansei e logo fui conhecer aquele paraíso.

O arquipélago é lindo, sedia praias a seu gosto e cavernas beijando o mar, sedia o testemunho animal da viva vegetação litorânea. Cada ilha tenta atrair olhares com recursos de alto nível, admiráveis.

Entretanto, como já muito ressalto, meus encantos margeiam, também, as plataformas culturais. Em Bocas não seria diferente – más notícias, o relato sofrerá decadência.

Os nativos estão reprimidos, isolados em sua própria terra. O arquipélago, sistematicamente, foi invadido pelo turismo e pelos estrangeiros, referencialmente por exploradores desinteressados com as pessoas, os costumes, com a reprimida cultura bocatorense. O idioma praticamente é inglês, as negociações em dólar – moeda oficialmente circulante do país – e as construções adaptadas, basicamente, para hotéis, escolas de línguas, restaurantes classistas e outras variantes do malvado turismo local. O comércio varejista é dos chineses e o resto, inclusive a (falta de) cultura, é dos Estados Unidos.

No meio dessa confusão, das festas e do ambiente de interatividade, dessa mescla de natureza com exploração, fui feliz de ganhar duas grandes amizades: Thiago e Willian, um é português e o outro panamenho. Thiago vive na Suíça, lá já tem sua vida e conversamos muito sobre os caminhos que ela nos atira. Marcamos de nos encontrarmos pela frente, em algum lugar do globo. Willian é daí, conhece tudo como a palma da sua mão. Já rodou o mundo vendendo arte e me deu o segredo da apaixonante e sofrida América Central. Sorte irmãos.

Por fim fui de Bocas sem saber aonde os nativos vivem. Vi muita solidão. Estão encarcerados em sua própria terra, na prisão insensível dos que querem, vaidosamente, comprar tudo. Senti pela situação e na despedida, mesmo passivo, desejei ventos melhores a Liliane, encarregada do hostal que me hospedei, amiga e bocatorense.

 

Por vezes as cores maquiam e sequestram a realidade.

O Panamá visto de San Blas

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Aqui existem coisas definitivamente diferentes. Como se refere o título, sem margem a coincidências, difere de tudo que vi por onde passei e, suspeito, por onde passarei. Um povo igual, marcado pelo traço físico do bravo indígena. Um povo emergente, desconfiado, residente fiel da intromissão invasiva a que sua sina lhe propõe a décadas. Quase século.
Pra valer isto se deu desde a introdução separatista a qual o Canal do Panamá, definitivamente – instalado sob interesses genuinamente externos, sem a mínima preocupação com a sociedade local -, foi protagonista.
Estava chegando de uma úmida e quente travessia de oito horas de barco, pelo Caribe; da isolada, privilegiada e triste Puerto Abaldia (primeiro ponto fronteiriço do leste do Panamá, quando se ultrapassa os limites territoriais da Colômbia pelo mar), a Carti, a mais povoada das quase 500 micro-ilhas que integram um dos recantos paradisíacos do mundo, o arquipélago de San Blas. Este conjunto de ilhas é integrante oficial do território panamenho, porém, os Kunas, etnologia única e dominante do território, conquistaram a autonomia e administram todo tipo de ação que se desenvolve dentro destes privilegiados pontinhos de terra, livres das interferências, por exemplo, do governo panamenho.
Ao navegar, a princípio, pelas águas do Panamá, já sem tempo para pensar na linda Colômbia que a pouco havia ficado para trás, senti literalmente, apreciando minha pele alvoroçar-se diante do confronto das tantas lindezas, o poder natural desse lugar. Estava no meio do caribe, cercado por água, índios e pedaços terrestres multiplicáveis que insistiam em respirar. Um paraíso que serve de portal para a conflitiva realidade deste, para meus olhos, novo país. Logo a frente, ao pisar no continente, ao conectar-me com a civilização oficial panamenha, já sentia, de novo na pele, o preço exagerado que paga uma comunidade refém das influencias sistemáticas da exploração externa. Dos estrangeiros brancos do norte, que falam inglês.
Queria falar mais de San Blas, da magia desse lugar, dos pores de sol incontestáveis, do sorriso inocente de humanos prisioneiros do paraíso, de umas das sedes cordiais da natureza. Queria esvaziar, limpar minha mente e viver como eles. Mas não posso, já estou infectado pelas efêmeras soluções que ilusiono poder encontra-las, mal sei onde…
Já sou escravo da ansiedade de escrever o verdadeiro Panamá.
Este primeiro país centro americano, do sul para o norte, hospeda dois mundos, duas realidades. No meio, entre uma e outra, está, imponente, o Canal do Panamá. Como escreveu Aleixo Berlov na década de 80 – único brasileiro, baiano, que deu uma volta ao mundo sobre um veleiro por ele construído, só, sem companhia humana -, numa de suas obras de extensa reflexão, intuição e sensibilidade, Em Busca do Oriente: “o canal corta o Panamá em dois, como uma navalha na altura do umbigo”.
Até o ano 2000 o canal foi administrado diretamente pelos Estados Unidos. Neste novo milênio um acordo mais teórico que prático construiu uma nova gestão, local, sob administração dos panamenhos. O que não mudou muito. Os processos gerenciais e operacionais, sob a máscara dos operários panamenhos, continuam sobre o controle estadunidense.
Fiquei pouco tempo no Panamá, mas passei momentos intensos. Interagi no que pude, entre seus pensamentos e instintos peculiares de entender a vida. Durante 15 dias, caminhando sem pressa sobre o solo do país, conheci de perto mais estrangeiros que nativos. Ficou o desejo de poder misturar-me com mais profundidade nas intuições desse povo.

A liberdade alivia e amplia a consciëncia.